Certezas Instáveis da artista Angella Conte

Por Letícia Kapper

A artista contemporânea Angella Conte, paulista radicada na Capital, está com exposição “Certezas Instáveis” no Sítio Local Digital.  A mostra conta com 7 obras, algumas inéditas, como a “Limiar”, obra audiovisual que mostra de perto a queda d’água Garganta do Diabo (Cataratas do Iguaçu).  A exposição fica aberta até 14/6 e pode ser vista das 16h às 21h, de segunda a sexta.

Ela também está com sua obra em destaque no Espaço Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, com a exposição Terra Nua, que fica até 29/7 no local.

As duas exposições giram em torno da relação do homem com o meio em que vive.

A Angella Conte tem para si que o artista e a obra são um só. A trajetória dela demonstra que sim. Confira a entrevista.

 

Quando e como começou sua trajetória na arte?

Desde que eu me conheço por gente eu faço alguma coisa em relação a arte. A minha mãe era professora de desenho e pintura, ministrava aula em casa. Então, a minha vida toda eu transitei entre livros, pincéis, telas. Na adolescência, eu tinha mania de desenhar a minha própria roupa. Naquela época, não tinha muito aquela coisa de comprar a roupa pronta, se mandava fazer na costureira. Eu sempre tive muita habilidade manual: passei pelo bordado, cerâmica, vidro, pintura, desenho, depois os desenho acadêmico e o arquitetônico. Até que eu descobri a escultura e me apaixonei. Esculpi durante 10 anos. Eu trabalhava o mármore. Em 2004, é que houve uma transição e eu passei a tentar novos materiais.

Você usa vários suportes para se expressar. Nos fale um sobre esses caminhos que percorre em seu processo criativo.

Geralmente pego algum assunto que me atrai ou que me incomoda e parto para materializar esse projeto, independente do suporte. Estou mais interessada em como aquela minha ideia vai chegar no fruidor, se eu vou passar a mensagem que eu quero passar ou não. Daí eu escolho a melhor forma. Pode ser fotografia, pode ser vídeo, objeto. Não importa o suporte, o que importa é a ideia.

Na sua obra é muito forte a temática relação do homem e natureza. Isso te inquieta ou atrai?

O trabalho e o artista é uma coisa só. E eu sempre tive uma preocupação muito grande como o meio ambiente. Eu tenho 5 filhos e desde que eram pequenos eu tinha uma preocupação muito grande. Antigamente, ninguém falava de separação de lixo, por exemplo, e eu já separava o meu e levava todo o fim de semana na cidade Universitária de São Paulo, que era o único lugar que tinha a separação de lixo. Falo em 1977, por aí. Hoje meus filhos são todos adultos e eles lembram disso, que eu ficava guardando aquele monte de lixo reciclável porque eu não colocava no lixo comum.

Quando eu passei a trabalhar o mármore eu nunca cheguei numa canteira e escolhi o bloco. Sempre trabalhei com a sobra da indústria. Depois quando eu mudei, a partir da pesquisa de novos materiais, comecei a fazer novos objetos com objetos que as pessoas, de alguma maneira, deixavam de usar. Não era o reciclável, mas sim uma cadeira que eu encontrava na caçamba, um material que, por algum motivo, a pessoa não usava mais e daí passei a fazer com essas sobras novos objetos. Sempre foi uma coisa de reutilizar. E agora, nos vídeos, faço a relação do homem com o meio ambiente. Não de uma forma ativista, mas comportamental.  A forma como ele lida com o meio ambiente, com a cidade, com seus entulhos, as marcas que deixa na cidade. É um recado meio sútil. Não tenho a intenção de mudar nada, nem sou ninguém para fazer isso, mas é a forma que eu tenho de mostrar como eu penso.

Pode falar um pouco sobre o vídeo do projeto Reocupação…

A pesquisa foi a seguinte: o homem destrói, constrói, abandona e a natureza silenciosamente reocupa o lugar que sempre foi seu. Em vários lugares que eu fui, que eu vou, onde tem essa interferência da arquitetura, da vegetação, da natureza tentando reocupar – como nessas casas abandonadas onde você vê a vegetação tomando conta das ruínas -, eu registrei e ainda registro. O vídeo, com a performance, foi numa praça em São Paulo e chama-se Sou tudo que vive além de mim. Nele, coloco tarjas de luto nas árvores como se a natureza guardasse o seu próprio luto em relação ao homem. Os objetos de feltro, que também estão nesta exposição no Sítio -Certezas Instáveis – são as tarjas que eu usei para a performance, que viraram pequenos objetos.

Você se coloca na sua arte, falo de sua imagem mais precisamente. O que te motiva?

A pessoa mais indicada para mostrar o que eu quero transmitir sou eu. É por isso que eu faço as performances. E também é a forma que eu tenho de naquele momento eu ser o outro. Ao final do vídeo Sou tudo que vive além de mim, no qual eu faço a performance, o ser humano que está ali (que sou eu – a artista) veda os olhos e amarra as mãos. É assim que eu vejo o posicionamento do homem. Vivemos num mundo capitalista, tudo é progresso, e eu acho que algumas coisas ficam para trás. E quem vai colher somos nós. Colhemos tudo o que plantamos.

Por que Certezas Instáveis?

Em 2009, eu fiz um trabalho, em São Paulo, no Museu Octávio Vecchi, no Dia Mundial da Água. Fiz vídeo, vídeo instalação, fotografia, vários trabalhos, todos com tema água. Uma instalação dentro do museu era com a imagem do rio de Piracicaba, muito famoso pelo grande volume de água. Nela, havia o vídeo com o volume imenso de água correndo e, saindo dessa projeção, havia círculos de espelho no chão que refletiam a água do vídeo, mas numa representação de um rio seco. Em 2009, o volume do rio era enorme, maravilhoso, mas aquele era um questionamento sobre como ele seria no futuro. Coincidentemente, ou não, em 2014, na grande crise hídrica, esse rio de Piracicaba secou. Morreram milhares de peixes.

E essa cachoeira linda maravilhosa que está aqui, na obra Limiar, até quando estará lá? Até quando será uma certeza? Por isso Certezas Instáveis. Cabe a nós, que somos habitantes do Planeta Terra decidir isso. Como vamos cuidar disso.. é sempre um pergunta. Tento sempre levantar essa reflexão.

 

Saiba mais sobre a exposição Certezas Instáveis e sobre a artista Angella Conte: CLIQUE AQUI

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