Contaminação, 2008-2010

Entrevista com Joana Vasconcelos

Entre os dias 16 e 29 de novembro, ocorre aqui no Sítio, a exibição Olhar sobre a Obra, de Joana Vasconcelos.

A mostra contempla um olhar sobre a obra de Joana Vasconcelos do ano 2000 até meados de 2015 e tem como objetivo mostrar ao público a sua obra através de vídeo registros e documentários cedidos pela artista plástica portuguesa. Confira abaixo a entrevista cedida por Joana Vasconcelos exclusivamente para O Sítio. Para saber mais sobre a exibição, acesse este link: bit.ly/olharsobreaobra

Trafaria Praia, 2013. Créditos: Luís Vasconcelos/Cortesia Unidade Infinita Projecto

*Entrevista na íntegra

O que a levou a iniciar-se no caminho das artes plásticas?

“Nunca decidi propriamente ser artista. Foi um processo que fui encontrando ao interessar-me e passar por várias áreas como a joalharia e o desenho. É algo que se foi construindo e todos os dias faço por sê-lo. O meu avô dizia que “leva muitas gerações numa família até se conseguir ter um artista,” e é um comentário que sempre mexeu comigo. A minha avó pintava, a minha bisavó dava aulas de piano. Houve sempre várias pessoas com uma queda para as artes na minha família, personagens fortes que acreditavam no que faziam, e rodeavam-se também de outros ligados às artes. O Palolo, por exemplo, era muito amigo do meu pai. Mas, o culto da pesquisa pessoal, do acreditar nas capacidades individuais, é algo que faz parte de várias gerações da minha família, e eu sou uma continuação disso.

Sempre gostei de fazer coisas e foi graças a um professor de desenho que comecei a traçar o meu caminho, ao incentivar-me e ajudar-me a entrar na Escola Artística António Arroio. Acho que nunca teria concluído o liceu se não tivesse andado nessa escola. Nessa altura também dediquei-me seriamente ao Karatê, tornando-me cinturão negro, segundo dan. Contudo, devido a uma lesão num joelho, o caminho artístico ficou ainda mais claro. Formei-me em desenho e joalharia no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), mas curiosamente acabei por fazer escultura. A descoberta de que podia viver da minha atividade artística aconteceu em 1996, quando vendi a minha primeira obra, Flores do Meu Desejo.”

Quais as inquietações que a levam a produzir instalações tão bem resolvidas
conceptualmente?

"Sou movida por uma necessidade de refletir sobre a realidade, de comunicar e de levantar questões, e, sobretudo, pela vontade de viver".

“A minha principal fonte de inspiração é a vida: os símbolos, os objetos de que nos rodeamos, os comportamentos das sociedades ao longo dos tempos. O que é transversal no meu trabalho é o reapresentar e subverter de tudo isto, de forma a gerar novos discursos e novos olhares sobre a realidade.

O meu processo criativo tem início com a observação crítica do que me rodeia. A minha inspiração surge do meu quotidiano, mas também do trabalho. Acredito que o fluir de ideias, uma certa elasticidade e versatilidade mental são fundamentais para a criação artística.”

Qual a importância de criar uma linguagem visual?

“As minhas obras resultam da observação dos comportamentos da sociedade contemporânea, sejam os objetos do quotidiano, os símbolos, as tradições, etc. O que têm em comum é o facto de resultarem da minha forma muito própria de ver o mundo, enquanto mulher e enquanto portuguesa. Ser artista é assumir uma forma muito especial e livre de nos relacionarmos com o mundo e os objetos do quotidiano carregam um potencial de significação impressionante. Julgamos conhecê-los muito bem, mas os objetos podem sempre adquirir uma significação
nova quando os desafiamos a servirem conceitos ou a questionar o mundo.

As minhas peças não se fecham num discurso ou numa só interpretação. São ambíguas e paradoxais e a riqueza está exatamente nessa multiplicidade de discursos e interpretações possíveis. Cada peça é uma entidade diferente e única.

Existe um lado de ‘alterego’ na minha forma de ser como artista porque como artista tenho a liberdade de vestir várias peles, quase como se na criação de cada obra eu estou a assumir um certo heterónimo, com a sua própria e individual forma de olhar e de pensar. A arte serve o propósito de dar modos de ver, e a mim, pessoalmente, interessa-me explorar as inúmeras leituras possíveis. O que eu pretendo em todas as minhas obras é que sejam inquiridoras e que as questões que levantam possam ajudar a alargar a perceção e o conhecimento que temos do mundo. Não pretendo que se encerrem num determinado discurso, mas que sejam abertas a diferentes leituras.”

"O objetivo é confrontar o espectador com uma visão crítica da sociedade. Para lá da dimensão, contemplação ou espetacularidade, quero que o público estabeleça uma relação com ela".

Que importância teve ganhar pela primeira vez um prémio em arte?

“O primeiro prémio que ganhei foi em 2000, o Prémio EDP Novos Artistas. A exposição Medley, no Museu da Eletricidade em 2001, no âmbito desse mesmo prémio, foi verdadeiramente marcante pois foi a primeira grande exposição da minha obra, para a qual foi a primeira vez em que tive de realizar um catálogo.

Nessa altura apercebi-me do conjunto de trabalhos que já tinha produzido, do que faltava fazer, e ganhei uma noção mais concreta de como o público perceciona a minha obra. Em cada uma das primeiras exposições fui aprendendo a importância do profissionalismo e do projeto, no que toca não só à construção das obras como à sua exposição. Fui aprendendo que passos deveriam ser dados para a realização de uma boa exposição.

Por exemplo, uma das primeiras vezes que quis expor A Noiva (2001 2005) foi-me impossível apresentá-la no local a que estava designada, pois tinha tirado as medidas erradas ao espaço!”

A Noiva, 2001-2005

Começou a trabalhar a partir de referências da cultura portuguesa, o que a levou a isso?

“Portugal é o meu país. É a minha casa. É onde cresci, onde me formei como pessoa e como artista, e, apesar de trazer muito dos países por onde passo, estes também influenciam bastante a minha obra e forma de pensar, mas é em Portugal que estou ‘enraizada’. Tal como o facto de eu ser mulher condiciona a minha relação com o mundo, a minha nacionalidade também o faz. Isto é algo que vai, naturalmente, transparecer no meu trabalho. Preocupa-me que a minha obra comunique globalmente.

Pegando no exemplo do croché: é um material profundamente imbuído de memória, que atravessa gerações e que é praticado um pouco por todo o mundo, fazendo dele algo realmente universal. A sua função original era, para além do seu papel decorativo, proteger os móveis.

Ao utilizar crochet, a ideia é subverter as expectativas de quem vê a minha obra, que imediatamente reconhece nela algo familiar, mas apresentado de forma diferente. Quando envolvo objetos com crochet, objetos esses (faianças de Bordalo Pinheiro e esculturas em cimento) que contêm a sua própria nostalgia, estou a subverter o que eles são. Isto resulta numa sobreposição de camadas de memória e na abertura de um novo diálogo e de um vasto campo de significados.”

O aparecimento do seu trabalho em Portugal teve efeitos importantes de re-significação do
objecto do Artesão, o que pensa sobre isso?

“O que eu faço é olhar para as tradições e legado das artes populares portuguesas, para aquilo que nos distingue e que é parte da nossa herança, descontextualizá-lo e reinterpretá-lo na contemporaneidade. Para isso, recorro frequentemente a materiais e técnicas desenvolvidas no nosso país, sendo que o que me interessa, acima de tudo, é gerar discursos através da criação de um confronto e diálogo entre culturas.

O trabalho em croché e em azulejo, a introdução do fado em determinadas obras, a reinterpretação das cerâmicas Bordalo Pinheiro, enquadram-se numa valorização e preservação da nossa memória para gerações futuras, mas, também, numa nova perspectiva sobre estes elementos. Utilizo materiais de variadíssimos sítios como a Fábrica de Cerâmicas Bordalo Pinheiro (Caldas da Rainha), a partir das quais desenvolvi o núcleo de trabalho da série Bordalos; da Fábrica Viúva Lamego, onde são encomendados os azulejos pintados à mão que integram várias peças. Dos Açores (Ilha do Pico) de onde vêm alguns dos crochés que integram as séries Bordalos; de Nisa, zona do Alto Alentejo onde são realizados os bordados característicos daquela região e que integram as Valquírias.

Depois, há um sem número de tecidos, lãs e outros adereços que são adquiridos em várias retrosarias tradicionais de Lisboa e em diversas fábricas. Algumas vantagens significativas podem ser trazidas às economias locais (e mesmo ao País), não só pela aprendizagem dos ofícios esquecidos por parte dos mais novos mas também pelo interesse dos criativos em incluir nos seus projetos as artes do saber fazer artesanal. Permite aos criativos vincar uma identidade, marcando a diferença e destacando-se dos seus pares; permite também ocupar e manter vivo um campo precioso de memória e criatividade. Aproveitando a capacidade de afirmação e difusão do local possibilitada pela globalização, o produto destes ofícios poderá ser levado até novos públicos. As maiores vantagens que um criativo ao observar o passado para construir o futuro tem a ver certamente com o perpetuar e enriquecer da memória.

As referências do passado, sendo partilhadas por muita gente, acabam por potenciar a comunicação entre a obra e o público. Por outro lado, a sua utilização vai expandi-las não só através do Tempo, como também vai imbuí-las de um novo espírito, renová-las e repensá-las. Como exemplo, a dada altura tomei conhecimento da ameaça de encerramento das Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro numa visita que fiz à fábrica. Decidi associar-me ao cívico de defesa da empresa porque, mais de 100 anos após a morte de Bordalo Pinheiro, é a fábrica a herdeira do seu saber.

É crucial salvaguardar o espólio do artista no seu contexto industrial,pois só assim se pode dar continuidade à sua obra. É da maior importância perpetuar o seu trabalho, através do seu estudo e da transmissão do saber às futuras gerações. A minha experiência diz-me que os artesãos encaram a intervenção do artista com alguma curiosidade e desconfiança. Contudo, quando genuinamente entendemos e respeitamos o seu ofício, a sua arte, o resultado acaba sempre por lhes conquistar o interesse e a admiração.”

Gostaria de desenvolver mais projectos no Brasil?

“Claro que sim! Adoro novos desafios.”

Joana Vasconcelos – Crédito: Christopher Morris/VII

  • João Aires – Curadoria e produção

    João Aires

    João Aires é coordenador cultural do Sítio. Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (2011), graduou-se em Artes Plásticas...

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  • parabéns João!. quem diria, Joana Vasconcelos no Sítio!.