Entrevista Roberta Carvalho – Exposição In Natura e Intervenção Symbiosis

Roberta Carvalho, artista visual nascida em Belém do Pará, está no Sítio fazendo uma residência artística e montando a Exposição In Natura, que fica em cartaz aqui no Sítio de 8 a 20/12, com visitação aberta nas quartas, quintas e sextas, das 17h às 21h.

A exposição sintetiza um pouco de suas pesquisas e processos que envolvem arte, tecnologia e intervenção urbana. No dia da Vernissage da Exposição In Natura (8/12), Roberta também fará a intervenção Symbiosis, a qual consiste em uma série de projeções de videografias ou fotografias nas árvores e vegetações do Sítio.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Roberta Carvalho para o Sítio. Para mais informações sobre a exposição, acesse: http://bit.ly/ExpoRobertaCarvalho

*Entrevista na íntegra

Roberta, como e quando se deu o teu interesse na produção de trabalhos artísticos? Nos conte um pouco sobre o teu percurso. 

"A minha trajetória nas artes iniciou-se relativamente cedo quando ainda na adolescência me interessei pela filosofia e pela literatura. A literatura me aproximou do sentido da arte. Comecei a escrever poemas e pequenos contos, prática que até hoje mantenho em minha vida."

“Sou formada em artes visuais pela universidade Federal do Pará (UFPA), mas estudei Letras também, por ter esta ter uma relação muito estreita com a literatura. Comecei a produzir trabalhos visuais a partir da poesia visual, que me levou para o campo da imagem e da fotografia e em seguida do vídeo. Daí pra frente mergulhei na história da arte e nas experiências visuais. Comecei a produzir vídeo-arte e a conviver à fundo com artistas de gerações anteriores a minha, colaborei com eles, participei de coletivos artísticos em Belém, estudei fotografia, um pouco de cinema, estudei pintura, experimentei a vídeo-performance, etc. Me deparei com a arte-tecnologia e com as possibilidades de intervenção urbana e vi que ali tinha um campo fértil para experimentar. Me formei depois de muito experimentar, demorei um pouco, fiz 3 faculdades e completei a última, a vida corria mais rápido que a academia.”

Por que começou a fazer projeções mapeadas?

“Quando comecei a produzir imagem e elas passaram a frequentar os espaços de arte de Belém, em salões de arte e exposições, senti um incômodo ao entender que quase sempre os espaços institucionalizados da arte não são frequentados pela grande maioria da população da cidade e muitas vezes a arte fica restrita a um público seleto da cidade. Isso me fez ter vontade de ir para a rua e tê-la como uma espaço de experimentação e difusão de arte. Comecei a produzir trabalhos pensados para a rua, desde inserções de obras na mídias (outdoors, fotografias em ônibus da cidade), até intervenções com objetos. Logo em seguida, isso já tem mais de 10 anos, vi a possibilidade de usar o projetor de imagem (na época um equipamento raro e bastante caro) como uma mídia interessante e versátil para intervenções na cidade. Comecei a produzir trabalhos de projeção para intervir na cidade. Passei a produzir projeções para fachadas de casarios antigos, ruínas, sempre nos fluxos da cidade, onde todo tipo gente passava. Antes mesmo de conhecer o que era video mapping, fazia projeções “mapeadas” de forma artesanal, usando fita isolante para criar recortes e encaixar em superfícies. Daí para frente, foi inevitável começar a estudar as possibilidades dessa linguagem e passei a entender a potencialidade da imagem projetada, que isso não é de hoje, se pensarmos a história da imagem.”

"Daí para o vídeo mapping foi um salto. Fiz o primeiro video mapping de Belém, isso em 2011/2012, e passei a pesquisar as possibilidades."

Sabemos que no trabalho “Symbiosis” retrata pessoas de comunidades ribeirinhas. Qual a razão do foco nessas populações?

“Comecei a produzir projeções nas árvores em 2007, partindo de um exercício de experimentação na rua. Até então o trabalho era uma experiência de utilizar a árvore como suporte. Em 2011, atravessei para a Ilha do Combú com o desejo de realizar trocas com as comunidades ribeirinhas e entender a forma como se organizavam enquanto comunidade e como conseguiam se relacionar com o meio ambiente de forma tão eficaz. A ilha do Combú fica em frente a Belém, a gente cresce olhando para aquela outra margem do rio, mas nunca atravessa. Hoje em dia já existe um potencial turístico e gastronômico na ilha, mas isso é relativamente recente. Passei grande parte da minha vida olhando aquela outra margem do rio, mas com completo desconhecimento daquelas pessoas e realidade. Da Ilha do Combú sai uma parte do açaí consumido pela cidade. O açaí é um alimento fundamental para a nossa região. De certa forma é muito simbólico saber disto. Uma comunidade que alimenta a cidade e de certa modo é tão marginalizada por Belém. Me propus a fazer algumas oficinas de arte para as crianças da ilha e isso foi fundamental na minha vida. Construí junto com elas algumas projeções, entre elas uma série do Symbiosis com pessoas da comunidade. Elas me conectaram às pessoas do lugar.”

"Daí que, a partir deste momento em que fiz as projeções na Ilha do Combú, entendi que o Symbiosis era muito mais do que as projeções sobre o suporte da árvore. Era arte como forma de relacionamento e encontro, à medida que se propõe a dar visibilidade à Ilha do Combú, aos sujeitos que ali vivem, trabalham, se significam e são também significados pelas especificidades territoriais de uma ilha."

Conte-nos um pouco da exposição “In natura” que está montando aqui no O Sítio.

“Essa exposição é especial e contempla um conjunto de trabalhos bem representativos da minha produção ao longo deste anos, com um olhar mais macro sobre o tema arte, tecnologia e natureza. É uma exposição que traz muito de um lugar também, que é Belém, minha cidade de origem e em especial da Ilha do Combú, ilha de ribeirinhos do outro lado de Belém. Traz uma interatividade com este lugar, atento às questões sociais, ambientais bem como interage com o sujeito ribeirinho amazônico, ressaltando suas singularidades e discutindo a condição de invisibilidade de certas comunidades, como da ilha do Combú, onde é notória a marginalização deste sujeito em relação à própria cidade e à sociedade.”

"Nesta exposição apresento vídeo, instalações, fotografias, todas conectadas com este universo."

Como tem sido a experiência na residência no Sítio? 

“A residência tem sido interessante. O Sítio é um lugar agradável, que possui um outro tempo, um tempo mais brando. Tem sido interessante os momentos de silêncio vivenciados aqui. Se a gente pensar bem, o silêncio é uma forma de resistência nos dias atuais em que o fluxo de informação é algo tão voraz e demasiado que nos consome e nos tira a possibilidade de apreensão de tudo isso. Fora isso, as trocas e interlocuções são bem importantes. A curadoria acompanhando o processo todo e construindo junto. O entorno é inspirador. A cidade também. Construí os trabalhos usando material das áreas verdes do sítio e inclusive produzi uma obra inédita ao longo destes dias.”

Roberta Carvalho

  • João Aires – Curadoria e produção

    João Aires

    João Aires é coordenador cultural do Sítio. Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (2011), graduou-se em Artes Plásticas...

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