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Mostra de Videoarte de André Parente Circularidade do Afeto e da Paisagem

Agora nas terças-feiras, aqui no O Sítio, você está convidado a curtir uma noite de Videoarte. Passando pelo cinema experimental, curtas, longas e até animações, dando oportunidade para artistas compartilharem sua arte e assim abrir, mais ainda, as referências para quem já se interessa, ou quem está entrando agora, nesse universo.

Após a exibição do projeto Exquisite Corpse, abrimos nosso espaço para receber André Parente, com a Mostra de Videoarte Circularidade do Afeto e da Paisagem. Nesta sua coletânea de 9 vídeos, André realiza diversas passagens entre o corpo, enquanto signo da circularidade do afeto, e a paisagem, enquanto rede simbólica que nos remete a um emaranhado de forças informativas.

Fique ligado na nossa programação!

Sobre a obra:
A obra de André Parente realiza diversas passagens entre o corpo, enquanto signo da circularidade do afeto, e a paisagem, enquanto rede simbólica que nos remete a um emaranhado de forças informativas – históricas, literárias e pictóricas. Na linha do corpo podemos citar O Homem do Braço e o Braço do Homem, O Vento Sopra Onde Quer e Circuladô. Na linha da paisagem Visorama (nas versões Paisagem Carioca e Situação Cinema), Belvedere, E la Nave Va, Paisagem n. 1 e Trilhos Urbanos. Em uma terceira linha de trabalhos produz-se uma articulação entre o caminho do corpo e o caminho da paisagem, formando uma conjunção ou via de mão dupla. É o caso de Dona Raimunda, Curto Circuito, Entre-Margens, Estereoscopia, +2 e o mais atual Ilhas de Pedra. Mas é sobretudo em Figuras na Paisagem que se opera uma síntese das passagens entre corpo e paisagem, entre cinema e hipertexto, onde o lado de dentro e o lado de fora se atravessam e confundem. De modo que o corpo, enquanto lugar da voz interior, é invadido pela voz de um “outro” – voz que informa. E a paisagem, enquanto lado de fora, pode ser na realidade um estado de alma, invasão da circularidade do afeto. A questão da circularidade está presente em toda o meu trabalho: circularidade própria aos dispositivos de linguagem cinematográfica, como quando da extrapolação do uso de campos e contracampos. Circularidade de discursos psicológicos, como quando das referências ao circuito paranoico, tão presente no discurso amoroso. Circularidade, finalmente, de corpos e imagens, quando de santos e guerreiros que giram em situações-limite. Circularidades que se reforçam e multiplicam quando inseridas umas nas outras. E finalmente no vídeo, a circularidade do loop faz com que percamos a noção de referencial externo e ponto de partida. É como se dois espelhos, um diante do outro, lançassem virtualidade contra virtualidade, sem que haja mais a possibilidade de identificar a origem da imagem e, logo, de distinguir verdadeiro e falso. Ficamos entre o dilaceramento do movimento caótico e o equilíbrio inerte que segue um único e mesmo rumo. Algo se desatrela, perde o chão e sai girando.

Dona Raimunda
Técnica: Filme, Vídeo e Fotografias
Data: 1977 (filme Super); 2015 (Vídeo e Fotografias)
Equipe: Câmera: André Parente; Edição: Lucas Parente

Dona Raimunda era uma grande contadora de histórias, que se tornou ela mesma uma
parábola. No final dos anos 70, em Canoa Quebrada, Dona Raimunda, que tinha por volta de82 anos, já estava cega de tanto sol refletido na areia enquanto cavava lutando contra a duna que invadia sua casa.

curto-circuito
Técnica: filme em 35 mm e Instalação
Data: 1979 (filme); 2007 (instalação)
Equipe: Ator: Joel Barcelos; Câmera Flávio Ferreira; Montagem: André Parente; Música: Miles Davis
Filme de perseguição onde não há diálogos nem enredo, apenas uma contínua fuga onde
sequer o perseguidor aparece em cena. A frase “não é porque sou paranoico que não tem
alguém me seguindo” se atualiza como nunca. Como em um conto de Kafka ou Cortázar, a
fuga parece continuar para além do filme e da sala de cinema.

estereoscopia
Técnica: vídeo e instalação
Data: 2005 (ambas versões)
Equipe: André Parente e Everton
Eu quero ver o que você o que você está vendo de mim dentro de você… Em Estereoscopia
quem vê é quem está sendo visto, como se toda imagem surgisse de uma projeção interior
plasmada através de um dispositivo especular. Se acrescentarmos a esta visão especular
o esquema obsessivo do double bind (uma pessoa deve agir imperativamente da maneira
X, mas para fazê-lo deve agir também da maneira Y, sendo que X e Y entram em conflito, o
que faz com que a pessoa se torne cindida), temos os loops imagéticos, sonoros e mentais
do trabalho, uma vez que ao nos cindir, eles nos expulsam de nós mesmos, nos levam para
fora: somos uma paisagem de paisagens.

+2
um homem e uma mulher usam o corpo para experimentar (medir, confrontar) a paisagem.
Técnica: vídeo
Data: 2007

Circuladô
Técnica: vídeo e instalação interativa
Data: 2007 (vídeo) 2010 (instalação).
Equipe: Montagem: Lucas Parente; Programação: Júlio Parente
Em Circuladô, circularidades se reforçam e se multiplicam quando inseridas umas nas outras: circularidades dos dispositivos próprios do cinema, circularidade dos dispositivos psicológicos, circularidades dos corpos em rotação de santos, guerreiros e visionários que giram em situações-limite. Circuladô insere na circularidade a imagem do giro propriamente dito; um giro que, dentro de um dispositivo circular, parece multiplicar ainda mais a formação de temporalidades paradoxais. A circularidade do loop faz com que percamos a noção de
referencial externo e ponto de partida, como se dois espelhos, um diante do outro, lançassem virtualidade contra virtualidade, sem que haja mais a possibilidade de identificar a origem da imagem. Ficamos entre o dilaceramento do movimento caótico e o equilíbrio inerte que segue um único e mesmo rumo. Algo se desatrela, perde o chão e sai girando.

Mulher maravilha
Técnica: vídeo
Data: 2015
Equipe: Edição: Vinicius Quintella; Música: André Parente
A mulher gira e muda de roupa inúmeras vezes até se transformar em mulher maravilha.

A bela e a fera (em parceria com Lucas Parente)
Técnica: vídeo instalação com projeção e televisão
Data: 2014
Equipe: Fotografia e edição: Lucas Parente
A videoinstalação resulta da inter-relação de vários suportes e elementos heterogêneos dispostos lado a lado no ambiente da instalação: a imagem de uma figura maltrapilha que aparece e desaparece sobre um colchão com motivos coloniais, o filme com imagens da cidade enquanto corpo em decomposição visto na televisão, as vozes que saem de cima e de baixo, o som da respiração e do caos urbano. Juntos, eles produzem um clima de terror e de ironia, de erotismo e hipnose. É todo um caráter híbrido e na multiplicação de sentidos surge do diálogo entre estes três suportes/elementos.

Irreal
Técnica: vídeo
Data: 2017
Equipe: Fotografia: Lucas Parente; Música: Fernando Moura
O irreal expressa a irrealidade da política brasileira por meio de uma moeda que contém a imagem dos dois principais conspiradores que promoveram o impeachment da presidente Dilma Roussef. Cunha, cunhado. O parentesco da palavra se resolve do outro lado da moeda. Temer, Temeritatem. Dois lados de uma só moeda: a moeda do golpe no Brasil. Entre as flutuações do mercado e as artimanhas dos piratas Brasilis, aqui foi criada uma moeda que não é deste mundo. Da irrealidade vivemos: fazer girar cara ou coroa não diferencia o resultado extremo de um sistema de trocas que levou a fragata ao naufrágio. Cabe a nós recolher as moedas como pistas de uma história ainda por vir.

O Vento Sopra Onde Quer
Técnica: Vídeo e Instalação Interativa
Data: 2015 (vídeo) e 2016 (Instalação)
Equipe: Edição: Alice Dalgallarondo.
O filme se apropria dos close-ups de mãos presentes dos filmes de Robert Bresson como um circuito sobre o poder das mãos enquanto articuladoras de intensidades afetivas. A obra possui duas versões, uma versão vídeo, monocanal, e uma versão instalação interativa. Nesta última, o espectador dispõe de um teclado onde cada uma das doze notas da escala temperada que correspondem às temáticas do cinema de Bresson: a arma, a escrita, a carícia, o suicídio, a violência, o dinheiro, a troca de objetos, o furto, a música.

Biografia:
André Parente é artista e pesquisador de novas mídias e cinema. Doutor em Filosofia e Cinema, sob a direção de Gilles Deleuze na Universidade de Paris . Em 1987, foi nomeado professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde criou o Centro de Tecnologia da Imagem. (N-Imagem). Entre 1977 e 2015, ele fez vários vídeos, filmes e instalações com uma abordagem principalmente experimental e conceitual. Sua obra foi exposta no Brasil, América, Europa e Ásia, e recebeu o Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia, a Petrobrás, o Prêmio Mostra de Realidade Virtual, o Prêmio Itaú Cultural Hipermedia e o Prêmio Oi Cultural pela Arte Visual, entre outros. Ele publicou uma centena de artigos e dezenas de livros. Entre seus livros, destacamos a Imagem-Máquina (1993); Sobre o Cinema do Simulacro (1998); O Virtual e o Hipertextual (1999); Narrativa e Modernidade: os Cinemas Não-narrativos do Pós-guerra (2000); Tramas da Rede (2004); Cinéma et Narrativité (L’Harmattan, 2005); Cinema em trânsito (2011), Cinema / Deleuze (2013), Cinemáticos (2013) e Passagens entre fotografia e cinema na arte brasileira (2015).

Mostra de Videoarte de André Parente
Circularidade do Afeto e da Paisagem
Data: 19 de Agosto
Horário: 19h30
Entrada franca

Realização: O Sítio
Organização: João Aires
Produção: João Aires, Bruno Castilho, Ighor Duarte e Sérgio Reis
Comunicação: Paulo Abarno e Eduardo Cavalcanti
Design: Oarteiro

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